Segunda Ordem: R.R. et A.C.

Um breve discurso às “Societas Rosicianas In Anglia”.

Por William Wynn Wescott

É salutar em certos momentos considerar nossa condição de Rosa-cruzes e lembrar a origem da Sociedade a qual pertencemos para com isso notarmos quão longe ainda estamos da realidade dos caminhos originais legado por nosso fundador C.R. e, prestarmos atenção àquelas Sociedades aparentadas de Rosa-cruzes, que existem hoje em dia, até onde sabemos delas.

Com respeito a historia passada, não devemos nos surpreender com o fato da escassez de documentos dado que o propósito dos Rosa-cruzes era o de permanecerem desconhecidos para as pessoas de sua época. Somente, ao que parece, algumas pessoas  notáveis tinham o direito de se mostrarem como membros reconhecidos dos Colégios Rosa-cruzes, como por exemplo Michael Maier, o estudante alemão de Alquimia falecido em 1662 e o Dr. Robert Fludd  de Londres e Bearstead, próximo a Maidstone, que morreu em 1637.

A estrela do Rosacrucianismo está agora uma vez mais ascendendo em nossa Sociedade e deu grandes passos nos últimos dez anos. É curioso notar que as ondas de interesse em temas inerentes ao oculto e ao místico parecem varrer de tempos em tempos uma nação, onde períodos de iluminação Rosa-cruz se alternam com outros de dogmatismos materialistas.

Devemos lembrar que o Rosacrucianismo em si mesmo não foi uma “coisa nova”, mas um renascimento de formas ainda mais antigas de iniciação de uma linha que  descendia  da Filosofia da Magia Caldeia, dos Sacerdotes Egípcios, dos Neoplatonicos, dos Hermetistas de Alexandria, dos Qabalistas Judeus e dos Qabalistas cristão tais como Raimundo Lulio e Pico da Mirandola.

O Fundador nominal de nossa Sociedade, Christian Rosencreutz, não inventou (ao menos no sentido moderno da palavra) as doutrinas que proponho e que agora devemos estudar. Conta-se que ele viajou à Arabia, à Palestina, ao Egito e à Espanha e que nos centros de estudo destes países encontrou e coletou o saber místico que ele reescreveu como um código de doutrina e conhecimento. No retorno de suas viagens ao estrangeiro instalou-se na Alemanha onde fundou um Collegium e selecionando alguns amigos os transformou em pupilos entusiastas. A nova Sociedade recebeu o seu próprio nome e nos legou os fundamentos desse esquema de Filosofia Mística que herdamos para perpetuar e levar à pratica. Lembremos que ele faleceu no ano 1484, o que nos remonta aos tempos de nosso Rei Ricardo III.

Os Fratres do Collegium original, que se encontravam no “Domus Sanctus Spiritus” (“A Casa do Espírito Santo”), eram homens instruídos, estudantes aplicados e benfeitores públicos. Suas regras eram: nenhum membro deve professar qualquer arte, exceto para aliviar os enfermos e gratuitamente; cada membro deve vestir as vestes próprias da região em que vive e deve atender a cada ano, no dia do Corpus Christis, a uma convocatória geral sempre que possível; cada membro deve procurar um aluno adequado para lhe suceder; a marca secreta deve ser C.R. ou R.C. e, finalmente, a Sociedade deve permanecer secreta por 100 anos.

Com o tempo os propósitos e tarefas dos Fratres foram alterados e a cura dos enfermos foi passou a ser dirigida pelos descobrimentos da profissão medica.

Por volta de 1710, alguém de nome Sigmund Richter empregando o codinome de “Sincerus Renatus” publicou em Breslau um trabalho denominado “A Perfeita e a Verdadeira preparação da Pedra Filosofal de acordo com o Segredo da Irmandade da Dourada Rosa Cruz”. Nestes volumes encontramos uma serie de 152 regras para guiar os membros Rosacruzes; estas regras são e foram uma guia para uma vida útil e ordenada.

Novamente por volta do ano 1785 foi publicado em Altonha, Alemanha, um dos mais importantes volumes, com laminas teosóficas colorida com palavras educativas, frases e vários ensaios sobre temas Rosacruzes. Seu titulo era “Geheime Figuren der Rosenkreuzer” e foi editado em dois volumes. Uma versão em inglês de algumas partes deste trabalho foi publicada em 1888 por Franz Hartman, um teósofo alemão.

Mais adiante, detectamos pinceladas dos propósitos dos Rosa-cruzes de tempos posteriores em um curioso pequeno tratado relacionado ao ramo francês da Sociedade, o qual relata a iniciação do Dr. Sigmund Bacstrom na colônia francesa de Marrocos pelo Conde de Chazal em 1794.

Não posso dizer onde está agora o original MS., mas nossa copia foi feita pelo renomado Rosa-cruz e adivinho de cristais Frederick Hockley, morto em 1885.

Bacstrom firmou o seu juramento com base em quatorze promessas, baseadas na: piedade e sobriedade, em manter segredo sobre a sua admissão, em preservar o conhecimento secreto, escolher sucessor apropriado, levar a cabo a Grande Obra, prestar ajuda e ser caritativo de forma reservada, compartilhar suas descobertas com seus companheiros, evitar a política, ajudar os estrangeiros, ser agradecido ao seu iniciador, etc.

Durante uma recente visita a África Oriental conheci em Natal um doutor nascido em Marrocos cuja esposa, uma Senhorita de sobrenome “de Chazal”, era nativa de Marrocos. Entre seus ancestrais, por volta de 1780-90,  estava M. de Chazal um gênio excêntrico a quem se atribuía a posse de curiosas artes, e que também se converteu em um notável Swedenborgiano e lecionou aulas de filosofia mística.

O nome é mencionado varias vezes na historia francesa de Marrocos que me foi entregue pelo Dr. Dumat de Durban. Parece lógico que no tempo da revolução francesa nosso Conde de Chazal tenha recusado seu titulo, como fizeram muitos outros membros da nobreza francesa.

O objetivo de nossa própria Sociedade hoje em dia é: procurar ajuda mutua e animo para resolver os grandes problemas da Vida e para descobrir os Segredos da Natureza; facilitar o estudo do sistema de filosofia baseados na Qabalah e nas doutrinas de Hermes Trismegistus e que foram fixadas pelos primeiros Fratres Rosae Crucis de Alemanha no ano 1450 e; investigar o significado e simbolismo de tudo o que atualmente permanece da sabedoria, a arte e a literatura do Mundo Antigo.

As Sociedades Rosacrucianas de Anglia, Escocia e os Estados Unidos, assim como os corpos maçônicos, não são os únicos descendentes do Collegium original. Na Alemanha e Áustria existem outros Colégios Rosacruzes de descendência mais direta que a nossa e que não sofrem as limitações que a Franco maçonaria nos impôs. Alguns deles,  ainda que  composto por poucos membros, têm estudantes que compreendem muitos fenômenos curiosos os quais nossos Zeladores ainda não estudaram.

Os Rosacruzes alemães conservam seus Colégios e membros em absoluto segredo, não publicam suas “operações” e nem noticias sendo quase impossível identificar a qualquer de seus membros.

Os grupos Rosacruzes alemães existentes na atualidade estão mais imersos que os nossos na mística e na tradição oculta e buscam estender as faculdades humanas além do material, rumo ao etérico, ao astral e aos mundos espirituais. A minha percepção atual a respeito do trabalho desenvolvido por eles é que eles não usam nenhuma formula ritual. No entanto os Colégios alemães experimentaram um notável renascer e os ensinamentos de Rudolf Steiner são considerados a fonte de introdução aos seus sistemas de Teosofia Oculta. Vários dos volumes de Steiner agora se encontram disponíveis em língua Inglesa, tais como “A iniciação e seus resultados”, “As portas do Conhecimento” e  o “Caminho a Iniciação”. Estes são volumes realmente dignos de estudo.

A Sociedade Rosacruz na Escócia e a Sociedade Rosacruz nos Estados Unidos foram capítulos da mesma fonte Rosacruz e brotaram do rejuvenescimento feito pelo Frater Robert Wentworth Little e por sua vez pelo Colegio Rosacruz na Inglaterra, o qual é mencionado por Godfrey Higgis em seu notável trabalho “O Anacalipsis”, ou “Um intento por quitar o Veu de Isis de Sais” o qual foi publicado em 1836. Ele observa que não se uniu ao velho colégio ao qual se faz referencia.

Por volta de 150 anos atrás um eminente judeu chamado Falk, ou Dr. Falcon, do qual se dizia ter ele poderes mágicos, viveu em Londres (se encontram referencias dele na “Enciclopédia da Franco maçonaria” de Kennet Mackenzie) e gozou de renomada reputação como mestre de Qabalah e outros estudos de caráter Rosacruz.

Falk pode não ter se afiliado plenamente a nenhum Colégio Rosa-cruz porque era um judeu estrito entre os judeus e os membros de todos os Colégios Rosacruzes verdadeiros eram sempre cristãos, muito embora, talvez, não de forma ortodoxa, uma vez que cultivavam a tendência de avançar nos ensinamentos dos ideais gnósticos.

Mackenzie localiza ao Dr. Falk entre as eminências Rosa-cruzes e certamente, como me disse, que teve a mão evidencia de sua conexão com a Sociedade. Muitos estudiosos cristãos adotaram uma modificação da velha Qabalah judaica e talvez, também, alguns judeus tenham sido aliados dos Rosacruzes cristãos.

Nosso próprio Magus, Frater R. W. Little, acercou-se de vários outros estudantes Rosacruzes notáveis dentre os quais posso citar: o ultimo Magus Supremo em Anglia, o falecido Dr. William Robert Woodman, uma pessoa versada na Qabalah e estudioso do hebraico; W. J. Hughan, o grande historiador Maçônico; William Carpenter, editor do “Diccionario da Biblia” de Calmet; Alphonse Constant, mais conhecido como “Eliphas Levi”, que ofereceu aos Fratres Little e Kenneth Mackenzie tanta ajuda que em retribuição foi eleito Membro Honorário do Colégio Metropolitano em 1873. Nossa Sociedade lamentavelmente perdeu o Frater Little ainda muito jovem. O Frater H. C. Levander, um professor do Colégio Universitário em Londres, foi um membro de destacado conhecimento  e demonstrou grande interesse nas tradições místicas da Sociedade.

O falecido Lord Lytton, autor de “Zanoni” e da “A historia estranha”, que foi em 1871 Grande Patrono de nossa Sociedade, demonstrou grande interesse nesta forma de filosofia, muito embora nunca tenha alcançado o mais alto grau do conhecimento. Por razões que são de domínio publico uma vez ele renegou sua afiliação Rosacruz, mas foi admitido como Frater do Colégio Alemão Rosacruz Central de Frankfurt; este Colégio foi fechado depois de 1850.

Entre os Fraters que foram recentemente condecorados em nossos Colégios, devo mencionar o recém falecido e singularmente culto John Yarker de Didsbury; ao nosso também falecido Adepto de York, T. B. Whytehead, que foi famoso como antiquário; ao Frater Fendelow do Colégio de Newcastle, que foi o autor de uma leitura Rosacruz sugestiva e instrutiva; ao Frater F. F. Schnitger, que fez profundas investigações sobre tratados Rosacruzes franceses e alemães; a Samuel Liddel Mathers, tradutor de partes do “Zohar” hebraico e a Frederic Holland, autor de “A reconstrução do Templo” e a “A Shekinah Revelada”. Outro eminente falecido foi Benjamim Cox de Weston-super-Mare, e naturalmente vinculo a ele o nome do grande Frater Major F. G. Irwin, que também partiu para o Templo do além.

Entre os jovens cultos de nossa Sociedade posso nomear os Fratres Dr. Vaughan Bateson, Thomas Henry Pattison, o Reverendo C. E. Wright, Sir John A. Cockbur, W. J. Songhurst, Herbert Burrows, A. Cadbury Jones, W. Wonnacott, Dr. W. Hammond, Dr. B. J. Edwards, e Dr. W. C. Blaker.

Nossos Colégios não necessitam de uma linguagem para o estudo das suas disciplinas; a narrativa da fundação da nossa Sociedade é singularmente sugestiva para nvestigações futuras i. O “Fama Fraternitatis”, documento alemão de 1614, na sua tradução para a língua Inglesa por Thomas Vaughan de 1652, nos confronta com a historia de Christian Rosenkreuz.

Seu tratado de companheiro, o “Confessio Fraternitatis”, oferece uma sutil introdução na perspectiva dos Rosacruzes de um século atrás.

“Chymische Hochzeit” ou “Bodas Alquímicas” de C.R e “Símbolos Secretos dos Rosacruzes” de Frazn Hartman, são tratados de alegorias Rosacruzes que recompensam uma  leitura cuidadosa e um estudo profundo; entretanto a elucidação de todo o conjunto das Ciências Adivinhatórias medievais, da Astrologia, da Geomância, etc, são temas adequados à leitura em nosso Colégio.

Para aqueles que podem compreender o latim medieval, existe um trabalho muito interessante denominado “Oedipus Aegyptiacus” de Athanasius Kircher.
É desejável que nossos estudantes se tornem conhecedores dos Mistérios do Antigo Egito, da Grécia e de Roma. A base do Ocultismo Ocidental da Europa Medieval é a Qabalaha dos Rabis hebreus medievais, a quem publiquei “Uma introdução”. Esta filosofia, que a primeira vista parece bárbara e crua, ainda será encontrada quando alguém se familiarizado com a sua nomenclatura. Ela então se mostrará concreta, coerente e capaz de transcender esquemas da Teologia, Cosmologia, ética e metafísica, servindo para trazer luz a muitas passagens bíblicas obscuras e para sugerir pontos de vista originais ao significado da maioria das descrições alegóricas encontradas no Antigo Testamento.

Uma copia verdadeiramente curiosa de uma velha pintura qabalistica de um Evangelho Sírio, com um ensaio descritivo do Dr. Carnegie Dickson, um notável Adepto Rosacruz escocês, foi recentemente doada à nossa biblioteca.

Os trabalhos do grande Qabalista Rosacruz Eliphas Levi são, para aqueles que leem francês com facilidade, uma mina da tradição mística, repletos de finas ilustrações e de fórmulas mágicas. Sua “Historia da Magia” é um depositário de informações relacionadas às Fraternidades e Ciências Secretas de todos os tempos e de muitas nações, enquanto isso os dois volumes em inglês da nova edição de “Sociedades Secretas” de Heckethorn deverão ser lidos como uma introdução as investigações pessoais e profundas.

A todos os investigadores sérios posso recomendar o trabalho de Franz Hartmann denominado “Magia, Branca e Negra”, pela sua contribuição ao seu esclarecimento dos verdadeiros objetivos da Alta Magia, os quais dizem respeito unicamente a nós, e desfaz vários conceitos errados que existem na mente dos não iniciados.

Para aqueles que desejam seguir mais perto os elementos religiosos do Antigo Testamento devo sugerir uma leitura exaustiva dos comentários do Dr. Allen Bernes em “Daniel” e “O Livro das Revelações” e as descrições simbólicas do “Livro de Ezekiel”.
No aspecto cristão recomendo “O caminho perfeito” ou “O descobrimento do Cristo” escrito pelo falecido Dr. A. Kingsford; neste volume se encontram elaborados os extensos esquemas do ensinamento cristão, o qual é demasiado forte para ser obscurecido por formas sectárias de culto.

Os princípios deste trabalho estão bem próximos aos dos primeiros realizados pelos seguidores de Christian Rosenkreutz, nome este provavelmente místico, mote ou sinônimo e não um nome de família: “Christian” fazendo referencia a uma tendência geral teológica, e “Rosenkreutz” pela Cruz do sofrimento, para cuja explicação e chave podem ser necessários uma Rosa ou uma explicação secreta.

Existe uma doutrina para os instruídos e outra forma mais simples para aqueles ainda incapazes de suporta-la; como o Novo Testamento mesmo nos conta sobre o Grande Mestre que ensinou a seus discípulos imediatos as verdadeiras chaves, enquanto que a outros lhes ensinou somente através de parábolas: “ e sem as parábolas Ele não falava a eles”

Então, meus Fratres, há temas adequados para a atenção de seus membros, mas existem muitos tópicos relacionados que podem converter-se em centros adequados de interesse e instrução, por exemplo, a categoria completa da arquitetura das igrejas como simbolismo cristalizado, os dogmas dos Gnósticos, os variados sistemas de filosofia dos Hindus, os paralelismos entre a doutrina Rosa-cruz e a Teosofia Oriental, para os quais há que se ler: o “Conceito Rosa-cruz do Cosmos” de Heindel; e esse tema envolvente, a origem e significado dos 22 Arcanos ou desenhos simbólicos do “Tarocchi” ou maço de cartas do Tarô, do qual Eliphas Levi diz que formam um conjunto de chaves que abriram todo segredo da Teologia e a Cosmologia.

Para aqueles que estão interessados na alquimia do passado, recomendo a leitura de “A Suggestive Enquiry into the Hermetic Mystery” 1850, de autor anônimo e “Resenhas sobre Alquimia e os Alquimistas” de E.A. Hitchcok 1857. E, por ultimo, podemos fazer investigações dentro do mais interessante problema “A Maçonaria Especulativa surgiu dos Rosacruzes?” Entendendo que os Rosa-cruzes alemães dizem que antes do ressurgimento Maçônico de 1717 estes eram idênticos em Europa.

Não podemos nos permitir esquecer que, não só como Rosa-cruzes mas também como Franco maçons, estamos comprometidos não só com a Irmandade e a Benevolência mas também a observar além das aparências das coisas, e buscar  investigar os segredos ocultos da natureza e das ciências. Tenhamos em mente que pouco conhecimento é algo perigoso, mas um estudo mais profundo revela as raízes do conhecimento como também acrescenta algo ao nosso corpo de informações. Não fiquemos de braços cruzados flutuando ao sabor da maré da indolência. Mas  procuremos sempre avançar na busca do verdadeiro conhecimento o qual é sabedoria e, lembre-se que “trabalhar é orar” ou como diz em latim: “laborare est Orare”.